A NUDEZ DO DESERTO: SONHOS E CERCAS
UMA LEITURA DO ROMANCE DE AMÓS OZ NÃO DIGA NOITE
Somos as abelhas do invisível. Saqueamos loucamente
o visível, para acumulá-lo dentro da grande colméia de ouro
do invisível.
Rilke
O mundo corresponde a um conjunto de finalidades autônomas
que se ignoram. Fruir sem utilidade, em pura perda, gratuitamente,sem remeter para mais nada, em puro dispêndio – eis o humano.
Emmanuel Levinas
Introdução
Esta comunicação é o resumo de um trabalho mais longo e disperso, cujo título, “Não diga que não vale a pena construir uma cerca”, é fruto de uma leitura do romance de Amós Oz, Não Diga Noite. Meu ponto de partida para a leitura do romance, e logo explicarei porque, foi a concepção de nudez de Emmanuel Levinas. Ao contrário do que faz a ciência, que desvela, desnuda, revestindo os elementos de uma significação e encontrando-lhes um lugar no todo ao captar sua função, Levinas entende que uma coisa colocada em sua nudez revela-se refratária a toda a classificação. Uma coisa em sua nudez escapa ao sistema de fins e de meios no qual estamos colocados: nua, uma coisa não remete a nada, não pretende dirigir-se a lugar nenhum. Apenas tem lugar. Intimamente relacionada à esta noção de nudez está sua teorização sobre a fruição. Segundo Levinas as coisas de que vivemos não são ferramentas, nem mesmo utensílios, no sentido heideggeriano do termo. A sua existência não se esgota pelo esquematismo utilitário que as desenha, como a existência dos martelos, das agulhas ou das máquinas. As coisas são sempre, numa certa medida, nos diz Levinas, objetos de prazer que se oferecem ao gosto, já adornadas, embelezadas (96). Até mesmo o pão e o trabalho do qual vivemos são conteúdos da vida que não apenas a preocupam, mas que a ocupam, que a divertem, dos quais ela é fruição. As coisas são assim sempre mais que o estritamente necessário, fazem a graça da vida. Levinas vai ainda mais longe, e diz que por detrás da teoria e da prática, há a fruição da teoria e da prática. Agora explico porque recorri as concepções de nudez e de fruição para me acercar do romance de Amós Oz. Primeiro, porque, ali, os personagens principais, Noa e Teo, perdem o fio da meada, percebem que não sabem mais porque fazem o que fazem. Entendem que não estão sob a primazia de um de um único desejo, que finalidades autônomas governam suas ações. Dão conta de que a atividade não tira o seu sentido e o seu valor de um objetivo último e único. Segundo, porque há nesse romance de Amós, a presença imensa do deserto. E há, também, uma profunda gratidão pela noite. E não é da noite que devora nosso esforço, que dobra nosso corpo de cansaço, que Amós nos fala. Ali, ela não é, apenas, a pantera negra que nos trabalha na mais íntima espessura do nosso ser. Também não é do deserto entregue ao desgaste progressivo do tempo que se fala, mas de um deserto povoado por ecos, rastros, traços, deixados pelos mortos de tempos antigos e recentes. A noite e o deserto de Amós Oz me fizeram discordar da tese que diz que somos, no fundo, passadistas inveterados, que o que queremos mesmo é voltar ao pó. O pó do seu deserto não vive exatamente sossegado, a noite não nega o brilho das estrelas. Seria, mesmo, o mais profundo desejo do ser humano, em escala decrescente, a volta à infância, a vida intra-uterina e por fim a condição inorgânica ou mineral? Seriam as nossas pulsões, em última instância, conservadoras, voltadas basicamente para o passado, tentando reeditá-lo ou reproduzi-lo? Seríamos em nosso âmago, trabalhados pela saudade de ser pó do qual saímos, ou de ser pedra, osso desnudo, silêncio, escuridão? Não haveria, também, no caroço do humano uma resistência ao retorno, um desejo de uma terra de onde de modo nenhum surgimos? Dei conta de que todas as perguntas que até então eu formulara, a partir do romance, eram variações de um mesmo tema. Na tentativa de cercá-lo recorro ao poeta da epígrafe. Ele diz assim: Como a lua, a vida também tem, certamente, uma parte que se esquiva de nós constantemente. Face esta, que não é seu contrário, mas seu complemento. Complemento que, embora inalcançável, constitui sua perfeição. Se for assim, se as cercas que construímos nunca são capazes de contornar inteiramente nossos projetos, e se é a face inalcançável desses projetos que constitui sua perfeição, então já não podemos mais considerar a incompletude do nosso saber, ou, a dimensão incapturável das coisas como limite, e sim como abertura através da qual o fluxo do devir escoa. Pensar assim é certamente se opor à nostalgia e ao ressentimento por termos sido lançados no mundo enganoso e faltoso dos sentidos, pois pensar assim é rejubilar-se com aquilo que resiste a ser subsumido sob nossas categorias. Ter gosto por essa idéia, talvez seja a nossa chance de abrir realmente nosso mundo ao Outro. Chance para um tipo de relação diferente daquela que o sujeito do conhecimento estabelece com tudo que está a sua volta, onde ele se encontra na posição do senhor que confere sentido, que ordena, que interpreta, anulando a resistência do Outro, ou seja, destituindo o Outro de sua alteridade.
Um sonho no deserto
Já vimos que segundo Emmanuel Levinas, quando uma coisa é colocada a nu é a sua face absurda, inútil, resistente, que transborda – é o seu registro na totalidade que entra em colapso. Nua, sua articulação com os outros objetos é rompida e sua finalidade, esquecida. Em outras palavras: para uma coisa, a nudez é o excedente do seu ser sobre sua finalidade.
Por outro lado, quando as coisas se subordinam de uma maneira radical à sua própria finalidade, nela desaparecem, assim como uma cidade desaparece, quando nela, tudo se adapta a uma finalidade de produção – é o caso das cidades industriais. Estilo de vida, habitação, comércio e tudo mais se amoldam aos interesses da indústria. Mesmo assim, para Levinas, a cidade não se dissipa inteiramente; algo escapa e perfura o bloqueio, e no meio da fumaça e da poluição industrial a cidade se volta, também para si mesma.
No romance de Amós Oz, Não diga Noite, uma casa comprada para a abertura de um centro de reabilitação para jovens dependentes de drogas – de todas as parte do país , abre lugar para muitas outras coisas, menos para a clínica. Abre lugar, sobretudo, para que as pessoas envolvidas no projeto se perguntem sobre os motivos do seu envolvimento.
Um excedente de ser, como quer Levinas, brota das coisas, mesmo quando a desolação já tomou conta de tudo. Noa e Teo – personagens principais e narradores do romance – visitam a casa a procura de algo que não sabem o que é, quando os planos para a abertura da clínica já foram deixados de lado e a casa já está em ruínas. A idéia da clínica vai se diluindo aos poucos – a cidade inteira é contra a construção – mas as visitas Teo e Noa continuam e algumas obras são realizadas. O jornal local “Uma Voz no Deserto” pinta um retrato sombrio sobre a clínica. As autoridades continuam tentando fazer com que eles mudem de idéia, e abram um centro de computação para jovens ou uma escola especial com programas para jovens superdotados ou qualquer outra coisa nesta linha. A associação de moradores também ataca, pois teme que seus imóveis sejam desvalorizados pela proximidade da clínica. Teo sabe que o projeto não pode ir adiante e mesmo assim algo o impulsiona em relação à casa, planeja obras, faz listas do material necessário. Percebe ter perdido o fio da meada, não sabe mais qual o propósito do seu investimento, mesmo assim continua tomando providências sobre o conserto da casa, até perceber que ela se tornou um fim em si.
Na verdade Teo não entende o que está acontecendo, pois há algum tempo ele decidiu que não quer mais se envolver com nenhum projeto; seus planos são parar de trabalhar – fechar seu escritório de planejamentos – e estudar o deserto. Ele acredita já ter feito tudo o que podia fazer e de agora em diante quer esperar. Do antigo empreendedor, posto que é engenheiro de planejamentos e que também assumiu papel de destaque na Guerra da Independência de Israel, resta agora um homem que quer viver em paz. Por esta razão, é estranho que o projeto da clínica acabe por envolvê-lo. No entanto ele reage; não quer construir uma cerca em torno de um sonho. Dou a palavra a Teo:
Anotei num pedaço de papel: Mobília. Equipamento. Problema de aquecimento no inverno. Cozinha ou dispensa? Mudanças interiores. Hidráulica. Eletricidade. Esgoto. Suprimento de água. Telhado. Telhas. Grades? Armários embutidos. Linha telefônica. Sala de tratamento? Sala de aula? Local para vídeo e TV? Computadores? Clube? Biblioteca? Tudo isso antes de chegarmos aos planos de funcionamento em si. Mas que funcionamento? E com quem? Aqui uma cortina desce sobre mim, como uma chuva de verão interna. Como se o edifício vazio tivesse se tornado um fim em si. Então telefonei a Dubi e lhe disse para cancelar por enquanto o empreiteiro beduíno e os pedreiros. Quinta-feira é muito cedo. Semana que vem também é muito cedo. Para que construir uma cerca em torno de uma coisa que não existe? Em torno de um sonho (Oz,195)?
Quando Noa, sua companheira, o conheceu ele já estava desligado de tudo, quase frio. Jamais contou a ela sobre o conflito, sobre a derrota, nem a respeito do choque com o ministro do planejamento de Israel, e do cargo que lhe foi oferecido e que estava muito aquém de sua altura. Quando resolveram viver juntos, em uma cidade no deserto de Neguev, seu prazer já estava voltado para o silêncio e para a escuridão. Mesmo desperto, ele parecia estar acordando de um sono profundo, como se estivesse evitando se envolver com o mundo dos vivos. Vejamos algumas palavras de Noa sobre Teo: “Como se estivesse virando as costas para alguma coisa. Gradualmente ele foi mergulhando numa perpétua hibernação, tanto no inverno como no verão, se é que se pode usar o termo hibernação para alguém que sofre de insônia (Oz,54).
No primeiro capítulo do romance, um narrador impessoal fala sobre Teo e pelo seu gosto pela conexão silenciosa entre o deserto e a escuridão. Por ele, o deserto está correto: antigo, impassível, vítreo. Nem morto nem vivo; apenas presente. Aos seus olhos, Tel Keidar parece o fim do mundo, e ele não se importa de estar no fim do mundo.
No entanto, neste romance, mesmo da desolação, do “fim do mundo” e até da morte, brota algo – ainda indefinido, e sem finalidade – algo sem utilidade, em pura perda, gratuitamente, sem remeter a mais nada, em puro dispêndio. É o “excesso de ser”, de tudo e de todos, que parece insistir e perfurar a totalidade. Mesmo o passado parece não querer passar completamente; ele volta, na forma de fantasma e em atividades que, no presente, já não fazem sentido.
Em “Não Diga Noite”, a noite se abre ao pranto dos mortos, ao som das árvores que um dia floresceram naquela terra, aos dias narrados no antigo testamento, a toda manifestação daquilo que quer retornar. Mulheres beduínas que morreram de fome no deserto, nômades, pastores de épocas passadas, o balido do cabrito sacrificado nos dias de Abraão, todos continuam sussurrando na escuridão do deserto, enviando das profundezas o anseio da volta. Neste romance, alguma espécie de cerca parece proteger um passado que excede – aquele que não passa – dos ataques do tempo.
Gerações passadas também voltam encarnadas nas atividades dos que vivem no presente. Atividades estas, algumas vezes sem muito sentido, inúteis, antiquadas, como por exemplo, passar uma noite inteira consertando uma velha máquina de escrever que jamais será reutilizada. No romance, é Teo, que ao se ocupar do conserto da máquina, liga sua paciência, sua habilidade, seu capricho, à dedicação e ao devotamento dos seus antepassados. Noa fica parada alguns instantes atrás dele, quieta, fascinada com a habilidade dos seus dedos, com a concentração absoluta de Teo. E entende, que são gerações de violinistas e escribas que estão ali reunidas.
Com o que já foi dito, sabemos que para Levinas, violinistas, escribas, relojoeiros, e também pedreiros, mecânicos e costureiras, se regalam, não apenas com produto de suas atividades, mas também com o manejo de seus instrumentos, de suas ferramentas, já que todo objeto se oferece à fruição, mesmo quando se trata de utensílios, de ferramentas. Em outras palavras, o bem buscado não é o resultado.
O que ainda não foi dito é que, para Levinas, a fruição de uma coisa consiste também do sofrimento que advém do seu manuseio, ou seja, nos regalamos também com a dor e com as nossas necessidades. Para Levinas, o ser humano compraz-se nas suas necessidades, é feliz com suas necessidades. O que é o mesmo que dizer que a necessidade é um bem. Dependência feliz, a necessidade é susceptível de satisfação como um vazio que se preenche. O sofrimento da necessidade não se apazigua na anorexia, mas na satisfação. Segundo ele, se não tivéssemos necessidades não seríamos mais felizes do que somos com nossa dependência das coisas – mas ficaríamos fora da felicidade e da infelicidade.
Isto posto, podemos dizer que somos felizes, não apesar das nossas necessidades, sofrimentos e lutas, mas porque nos regalamos com nossa dependência das coisas que nos empenhamos em conquistar.
Podemos nos regalar tanto com a liberdade, como com a tarefa de conquistá-la. Regalamo-nos com os obstáculos para a liberdade, na medida em que amamos enfrentá-los e que gozamos com a destruição dos mesmos. Os obstáculos também são um bem.
Para Teo não havia mal em se deixar levar para longe de si, ele fruía esse afastamento; era o seu bem.
No final do romance, Noa sucumbe ao cansaço. Ela, que sempre tinha pressa em resolver os problemas, em tomar providências, acaba repetindo a frase que caracterizava Teo: “Mas qual é a pressa?”. O desejo de Teo parece ter sido mais forte. Talvez, sem perceber inteiramente, ele tenha coberto os ombros de Noa com o seu fardo – com seu desânimo, com sua desistência. Ele se pergunta, à uma certa altura, se, na verdade, não é exatamente isto o que ele quer – que Noa também desista, que ela também se canse e não tenha mais pressa: “Será que realmente quero que ela voe para fora? Ou será que estou aqui dentro à espreita, imóvel, prendendo-a com um olhar fixo na escuridão, esperando que ela sucumba ao cansaço (Oz,47)?”
Por outro lado, Noa já suspeita de que o seu bem maior, seu desejo, não seria acordar Teo, arrancá-lo de seu recolhimento. Já nos primeiros encontros entre os dois, Teo intui que a atração de Noa por ele tem a ver com a vontade dela de acordá-lo: E não era bem que ela tinha gostado de mim. A expressão correta era que eu havia dado a impressão de ser prisioneiro numa cela dentro de mim mesmo, e despertado nela a vontade de se chegar para que eu não congelasse na escuridão (Oz,113).
Sua luta para conseguir abrir a clínica e seu aparente desejo de que Teo não interfira, não ajude – ela repete inúmeras vezes que não quer a ajuda de Teo, que não quer que ele abra nenhum caminho, recorrendo a pessoas do governo que são suas amigas – não é nada menos do que o desejo de deixá-lo irritado, a ponto de acordá-lo:
E eu? Uma professora entediada começando um capítulo novo? Procurando testar a si mesma? Ou será que quero apenas provocá-lo, armando uma pequena confusão para obrigá-lo a acordar, se é que se pode dizer isso de um homem que sofre de insônia (Oz,139).
Se o desejo maior de Noa fosse abrir a Clínica ela teria aceitado a ajuda de Teo, pois ninguém mais adequado que ele para conduzir esta iniciativa, acalmar temores, influenciar a opinião pública. Suas qualificações, sua história, sua figura que inspira confiança, sua competência, sua imagem, teriam provavelmente tornado possível o projeto.
Isto posto, termino com algumas perguntas: o bem de um era o bem do outro? O que sabemos sobre o bem do outro? Quando digo me sacrificar por alguém, o que ganho com isto? Talvez eles só quisessem construir uma cerca em torno de....
Referências Bibliográficas:
BORGES, Jorge Luis. El Oro de Los Tigres. Buenos Aires: Emecé Editores, 1974.
LACAN, Jacques. A Ética da Psicanálise. Rio de janeiro: Zahar, 1997.
LEVINAS, Emmanuel. Totality and Infinity. Pittsburgh: Duquesne University Press, 1969.
OZ, Amós. Não Diga Noite. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.